Nem tudo o que parece pausa é ausência de movimento.
Às vezes é decisão.
E se parar agora alterar o que ainda não vi?
E se seguir em frente e perder algo que não previ?
Há caminhos que não gritam quando ficam por ali.
E escolhas que só mostram o peso depois de partir.
Não é solidão o que me atravessa o pensamento.
É o cálculo invisível do próprio movimento.
Cada gesto abre uma versão do tempo.
Cada silêncio altera o argumento.
O mundo não avisa quando muda de direção.
Apenas continua… com outra interpretação.
E eu fico entre o impulso e a contenção,
a medir consequências que não têm explicação.
Nada aqui é falta.
Tudo aqui é possibilidade.
E se não for este o momento certo de avançar?
E se o que deixo para trás voltar a faltar?
E se o futuro já tiver decidido onde me vai levar?
E se o que hesito hoje me vier a cobrar?
Não há resposta que não tenha variação.
Nem escolha que não altere a direção.
O que parece dúvida é construção.
O que parece pausa… é preparação.
Não é solidão, é perceção ampliada.
É ver cada decisão como linha desenhada.
É sentir que a vida não está parada,
apenas a ser silenciosamente alterada.
Há coisas que nunca voltam ao mesmo lugar.
Há versões de nós que não vão regressar.
E mesmo assim continuo a tentar pesar
o que fica contra o que posso ganhar.
Não é medo. É precisão.
É o rigor invisível da reflexão.
É perceber que cada direção
cria outra versão da mesma invenção.
Nada se perde de forma imediata.
Tudo se reorganiza na estrada.
E se parar agora mudar o que ainda não vi?
E se avançar for perder algo dentro de mim?
E se cada escolha me afastar do que não percebi?
E se o tempo só revelar depois o que vivi?
Não há mapa para o que ainda não aconteceu.
Só decisões que o presente escreveu.
E entre o que fica e o que cresceu…
sou eu… a linha frágil do que sou e do que nasceu.
Tiga, Alentejo, sete, cinco, quatro, zero.