No Alentejo a noite cai devagar e sem pressa,
como quem não tem relógio, só o céu como promessa,
o campo respira fundo, a paisagem não se apressa,
e a lua sobre os montes deixa a alma mais incerta.
Estradas longas, vazias, cortam terra adormecida,
onde cada luz distante parece uma ferida,
mas há beleza no vazio, na calma repartida,
entre sobreiros antigos e a solidão mais vivida.
O vento passa nos montes como voz de antigamente,
traz histórias sem palavras que se sentem simplesmente,
e eu caminho neste nada, mas sinto-me presente,
como se o tempo aqui fosse sempre diferente.
Música no pensamento, batida seca e crua,
mas a terra não acelera, ela insiste, continua,
no compasso da planície, onde a vida flutua,
e até o silêncio escreve versos na rua nua.
As estrelas tão perto que parecem cair na mão,
o céu do Alentejo pesa mais que qualquer tensão,
há paz nesta distância, há dor na imensidão,
mas é nesta contradição que encontro direção.
Velhos muros, aldeias que já quase não falam,
mas guardam dentro de si tudo o que nunca calam,
vozes de gerações que no tempo se embalam,
como memórias vivas que no vento se espalham.
E eu sigo sem destino, só com ritmo no peito,
entre campos e saudade, num caminho imperfeito,
Música a dar-me força quando tudo está desfeito,
no Alentejo até o escuro tem respeito.