Nasci onde o pão era contado à fatia,
Onde o medo dormia na mesma moradia.
Vi a minha mãe engolir lágrimas caladas,
Enquanto a noite partia portas fechadas.
Aprendi cedo que a vida não avisa,
Ou apertas os dentes... ou a alma desliza.
Vi homens venderem o corpo por trocos,
E outros venderem a honra por poucos.
Hoje vêm falar-me de currículo e medalha,
Mas nunca sentiram o peso de uma enxada.
Nunca levaram o frio colado ao osso,
Nem fizeram do silêncio o almoço.
**(Refrão)**
As minhas mãos têm ferrugem, não perfume francês.
Carregaram cidades que nunca agradeceram de vez.
Enquanto assinavam papéis atrás de um balcão,
Havia quem levantasse o país com o sangue na mão.
Não confundam silêncio com rendição.
Nem roupa simples com falta de visão.
Quem levanta paredes também levanta nações...
E sem essas mãos... caem os vossos palácios de ilusões.
**(Verso 2)**
Chamam-me bruto porque a vida me ensinou alto.
Vocês aprenderam livros... eu aprendi o asfalto.
A gravata não faz homem.
O diploma não faz caráter.
Porque já vi doutores sem alma...
E serventes com coração de gigante.
Respeita quem cava.
Respeita quem solda.
Respeita quem limpa.
Respeita quem volta...
Porque quando o cimento seca, ninguém pergunta
Quem escreveu o projeto...
Perguntam quem ficou até ao fim.
**(Final)**
No dia em que as mãos cansadas disserem "basta"...
Não é o fato que pega no ferro.
Não é a caneta que levanta o bloco.
Não é o discurso que constrói uma casa.
É o homem... que chega sujo.
E volta para casa... de cabeça levantada.