Escrevo porque há dias em que o peito perde a fala,
E o papel abre a porta quando o mundo a fecha à cara.
Escrevo porque a lágrima nem sempre cai dos olhos,
Há quem chore por dentro... e nunca baixe os ombros.
Escrevo porque a vida nunca trouxe manual,
Só um punhado de cicatrizes e um silêncio desigual.
Porque há abraços que regressam sempre tarde,
E despedidas que continuam vivas mesmo depois da viagem.
Escrevo porque o tempo nunca espera por ninguém,
Leva nomes, leva casas, leva quem jurava "vem".
Se a memória tem raízes, a palavra é o chão,
Onde volto a semear aquilo que perdi na mão.
Escrevo para não morrer devagar por dentro.
Escrevo para dar voz ao que nunca teve momento.
Escrevo porque o mundo esquece... o papel não.
Cada verso é um pedaço da minha respiração.
Não procuro aplausos, procuro verdade.
Não procuro fama, procuro liberdade.
Se um dia a minha poesia se perder no vento frio...
Que fiquem as palavras.
São elas que ficam depois do vazio.
Escrevo pelo miúdo que sonhava em voz baixa,
Quando a esperança dormia numa casa sem graça.
Escrevo pelos que partiram sem dizer adeus,
E pelos que continuam vivos... E deixaram de ser seus.
Escrevo porque o amor nunca coube numa frase,
Nem a dor se resumiu ao tamanho de uma lágrima.
Cada verso nasce torto, como nasce toda a gente,
É a imperfeição que faz um coração seguir em frente.
Se a noite me engolir, acendo sílabas no breu,
Faço da saudade lume, faço da derrota um museu.
E quem escreve não foge à realidade...
E um dia...
O meu nome será apenas pó.
A minha poesia...
Talvez ninguém a recorde.
Mas enquanto houver alguém...
Que encontre abrigo numa linha minha...
Eu continuo vivo.
É por isso...
Eu escrevo.