Não nasci para andar.
Nasci para aguentar.
Pregaram-me ao chão...
e deram-me a cidade inteira.
Vi rapazes a jurar
que nunca iam sair daqui.
Hoje voltam de vidro no olhar,
à procura da rua onde deixaram o primeiro grito.
Conheço botas cobertas de barro,
camisas molhadas de suor,
mãos que fizeram da terra
uma resposta ao calor.
Vi o sol rachar agosto,
vi janeiro partir ossos.
Vi homens engolirem o orgulho
só para levarem pão aos nossos.
Sentaram-se ao meu lado
com o mundo preso na garganta.
Levantaram-se...
menos pesados.
Senta-te.
Não tragas desculpas.
Deixa-as cair
entre as tábuas gastas.
Eu guardo-as.
Como guardei
nomes,
promessas,
e despedidas
que nunca tiveram coragem
de olhar para trás.
Conheço o cheiro da praça
antes de acordar.
Conheço o sino
antes de tocar.
Conheço o café
que arrefece
porque a conversa pesa mais
do que a chávena.
Já vi gargalhadas
a vencerem semanas inteiras.
Já vi um velho
ficar horas calado...
e dizer mais
do que uma aldeia inteira.
Passaram crianças
que sonhavam ser gigantes.
Hoje passam gigantes
à procura da criança
que perderam pelo caminho.
O tempo mudou-lhes a cara.
Nunca lhes mudou o olhar.
Nunca pedi
que me ouvissem.
Pedi apenas...
que se sentassem.
Porque quem abranda...
acaba sempre
por encontrar
aquilo que andava
a perder.
Quando um dia
já não houver ninguém
para contar
a história desta praça...
Olhem para mim.
Ainda cá estarei.
Com as marcas
de todas as mãos.
Com o peso
de todas as vidas.
Porque um banco de jardim
não é madeira.
É a memória
de uma cidade
que nunca deixou
ninguém
sentar-se
sozinho.