Parado no semáforo, olhar anestesiado,
cidade em movimento mas eu desconectado,
gente vive depressa num teatro acelerado,
cada rosto parece cansado e programado.
Um puto no passeio vende sonhos vaporizados,
Air Max falsas e discursos decorados,
quer parecer intocável pros manos frustrados,
mas os olhos dele já nasceram demasiado cansados.
No café dois cotas discutem futebol e política,
como se mudar o mundo viesse da estatística,
um fala da inflação com postura académica,
o outro só quer minis e conversa sarcástica.
Fico isométrico a observar a frequência,
há uma estranha coreografia na decadência,
toda a gente representa uma personagem de aparência,
mas quase ninguém suporta a própria consciência.
Uma rapariga no comboio chora discretamente,
finge olhar pró telemóvel para esconder da gente,
e isso bate diferente quando és observador frequente,
porque há dores silenciosas em toda a gente.
T grande absorve tudo sem falar muito,
sou daqueles que lê ambiente num segundo bruto,
há tensão no ar mesmo quando tudo parece absoluto,
tipo calma antes do vidro partir num insulto.
Noite cai sobre os prédios meio industriais,
scooters passam rápido com escapes infernais,
há putos a sonhar vidas internacionais,
mas nunca saíram das rotundas municipais.
Boom bap atmosférico, textura cinzenta,
piano minimalista, bass violenta,
cada barra minha entra lenta… mas arrebenta,
tipo verdade inconveniente quando ninguém aguenta.
Isométrico no meio do ruído coletivo,
olhar frio, raciocínio introspectivo,
a vida inteira parece um processo repetitivo,
mas há beleza escondida no caos corrosivo.