O cinzeiro conhece segredos que o fumo nunca contou.
O casaco continua à porta... à espera de quem já mudou.
Há cafés que sabem o meu nome antes de eu me apresentar,
e bancos de jardim que aprenderam a ouvir sem perguntar.
A cidade troca de luz... mas não troca de pele.
Há gente a sorrir para fotografias... e a fugir do espelho delas.
Levo o bolso cheio de trocos... e a cabeça cheia de marés,
porque nem toda a riqueza faz barulho quando aparece.
Se a vida...
for maior do que eu,
que me ensine.
Não que me dobre.
Se a vida me chamar...
não vou perguntar porquê.
Há comboios
que passam uma vez
e ficam para sempre
na estação de quem os perdeu.
Se a vida me quiser...
que me encontre inteiro.
Sem máscara.
Sem pressa.
Com as mãos vazias...
e a alma
cheia de caminho.
Conheço paredes
que decoram o nome da chuva.
E telhados
que já desistiram
de discutir com o inverno.
As ruas
não guardam pegadas.
Guardam decisões.
Cada esquina
é uma pergunta
vestida de alcatrão.
Não quero uma vida perfeita.
Quero uma vida
que, quando acabar,
consiga dizer:
"Valeu a pena
ter sido vivida."