Não nasci tarde.
Cheguei foi
a um mundo
que já distribuía lugares.
Uns herdaram mesas.
Outros...
aprenderam
a comer de pé.
Nunca invejei o ouro.
Invejei
a leveza
de quem adormece
sem negociar
consigo próprio.
Há dias
em que visto a coragem
como quem veste
uma camisa molhada.
Ninguém repara.
Só quem a transporta
lhe sente o peso.
Não me ensinaram
a perder.
Ensinaram-me
a esconder
a derrota
para não incomodar.
Talvez seja por isso
que tanta gente
morre devagar,
enquanto continua
a aparecer nas fotografias.
Nunca fui pobre.
Faltou-me foi descanso.
Nunca fui fraco.
Faltou-me foi um lugar
onde pudesse
baixar a guarda.
As mãos
não tremem
por causa do frio.
Tremem
de tanto segurarem
o que já devia
ter caído.
Se Deus
ainda escrever
o meu nome
antes de amanhecer,
não Lhe peço
que mude
o caminho.
Peço-Lhe apenas
que me devolva
a paz
que fui deixando
em todas as portas
onde tentei
provar
que merecia entrar.
E se amanhã
ninguém bater palmas,
o que importa?
Há sementes
que fazem o seu trabalho
inteiras
debaixo da terra.
Sem ruído.
Sem testemunhas.
Só à espera
do tempo
que ninguém
consegue apressar.