Já não me pesa a noite nem me corta o pensamento,
o que foi tempestade hoje é só lamento lento,
perdi-me em cada passo, ganhei-me no sofrimento,
mas a dor foi-se embora como folha ao vento.
Chorei rios sem margem, sem ninguém para ouvir,
falei com o silêncio quando não soube fugir,
mas até o coração cansa de tanto insistir,
e aprende que o fim também pode sorrir.
Fiz da mágoa morada, fiz da ausência canção,
cantei fado ao vazio dentro da solidão,
mas a vida, sem aviso, muda a direção,
e quebra devagar o nó da prisão.
Hoje canto mais leve, já não carrego o passado,
o que doeu foi caminho, não destino traçado,
e o peito, antes fechado, agora está libertado,
como quem perde tudo… e fica abençoado.
A dor acabou, sim, sem bater, sem aviso,
ficou só a memória do que foi preciso,
e no fado que me resta já não há improviso,
há paz no que foi guerra… e um novo sorriso.