A nossa calçada não fala, conhece cada passo,
guarda o peso das chegadas... e o silêncio do regresso.
Já sentiu botas gastarem o orgulho contra o chão,
sapatos bem polidos a perderem a direção.
Viu um beijo no fim de tarde, viu um adeus sem algum aviso,
viu gargalhadas de verão, e janeiros sem algum sorriso.
Não escolhe quem a pisa, não aponta quem nela passou,
conhece pelo peso de quem caiu, e levantou.
Enquanto a cidade dorme, ela aprende a respirar,
cada pedra é uma memória que ninguém pode apagar.
Há destinos desalinhados escritos sem cá ficar,
e pés que chegam vazios, e regressam na companhia.
Calçada,
ensina-me a ficar de pé.
Tu conheces mais caminhos
do que qualquer mapa.
Se um dia perder o Norte,
guarda o desenho dos meus passos
até eu voltar.
Nem toda a marca se vê, tem pegadas sem contorno,
há quem caminhe uma vida inteira sem encontrar o próprio retorno.
A poeira muda de dono, a rua muda de cor,
sem que nenhuma madrugada consiga apagar o valor.
Se as paredes têm ouvidos, tu tens memória inteira,
escutaste mais verdades do que a praça e a bandeira.
Quando um velho fecha os olhos, levas décadas contigo,
ninguém pisa o mundo sem deixar um nome escrito.
Quando eu partir,
não quero estátuas.
Quero apenas,
que esta nossa calçada,
ainda se lembre,
da forma como caminhei.