Nasci onde a fome se sentava à mesa,
Onde um prato cheio já era riqueza.
Vi a minha mãe a engolir o choro,
Enquanto o medo fazia casa sem pedir namoro.
Aprendi cedo que a vida não espera,
Ou cerras os dentes... ou ficas na beira.
Cresci com o pó agarrado às botas,
E o suor a escorrer pelas costas.
Não venham dizer que não valho um tostão,
Porque nunca me faltou trabalho nem coração.
O meu currículo são calos na mão,
Cada marca conta uma construção.
*(Pré-Refrão)*
Enquanto uns falavam...
Outros faziam.
Enquanto uns mandavam...
Outros erguiam.
E quem hoje olha de cima para mim...
Esqueceu-se...
Quem lhe levantou o chão.
*(Refrão)*
**Costas ao sol...**
Peito sem medo.
Mãos de ferro...
Nunca cedo.
Quem mexe na terra...
Também faz crescer.
Quem pega no ferro...
Também faz viver.
Podem vestir fato...
Podem usar gravata...
Mas sem quem trabalha...
Não se levanta uma casa.
*(Verso II)*
Já vi copos vazios e mesas sem pão,
Já vi famílias a viver da união.
Já vi a violência entrar pela porta,
E a esperança a recusar-se a estar morta.
Hoje apontam o dedo ao meu passado,
Como se ninguém tivesse tropeçado.
Mas quem nunca caiu nunca aprendeu,
O homem que sou... fui eu que o ergui, não foram eles.
Chamam-me servente...
Eu digo trabalhador.
Chamam-me ninguém...
Eu digo construtor.
Porque quem suja as mãos...
Limpa a vergonha de muitos.
*(Ponte)*
Quando o cimento seca...
Ninguém pergunta quem o amassou.
Quando a obra fica pronta...
Toda a gente bate palmas...
Mas ninguém se lembra...
De quem lá estava às seis da manhã.
À chuva.
Ao frio.
Ao calor.
Com as costas ao sol.
*(Refrão Final)*
Costas ao sol...
Cabeça erguida.
Não devo favores...
Devo-os à vida.
Se um dia as mãos cansadas disserem "basta"...
Quero ver...
Quem pega no ferro.
Quem sobe ao andaime.
Quem carrega os sacos.
Quem levanta o país.
Porque sem nós...
Só há betão.
Nunca haverá...
Construção.