Eu venho da margem, da linha que o mapa não mostra,
onde a dor vira verso e a palavra vira resposta,
onde o silêncio grita mais alto que a sirene da viatura,
e o rap nasce remendo pra rasgar essa estrutura.
Poesia marginal, não é moda, é ferida aberta,
é caneta na mão de quem nunca teve porta aberta,
é microfone erguido pra quem só ouvia “não”,
é favela escrevendo história na própria mão.
Rap não é só batida, é sobrevivência,
é documento vivo da nossa existência,
é memória dos que tombaram sem placa na rua,
é voz de mãe cansada que ainda continua.
É mais que entretenimento no fone do busão,
é aula de realidade sem livro e sem patrão,
é o jornal da quebrada, edição sem censura,
é manchete do gueto impressa na batida dura.
Gangsta não é glamour, é consequência do chão,
é crescer vendo o sistema apontar sempre a mesma direção,
é aprender cedo que o erro cobra juros alto,
e que o certo quase nunca vem no asfalto.
Rap me ensinou a ler o mundo antes da escola,
a ver quem puxa o gatilho e quem lucra com a pistola,
a separar promessa de política vazia,
e transformar revolta em rima, em poesia.