Nunca vi o vazio,
vi molduras sem retrato,
o tempo sentado à mesa, num relógio sem passado.
Vi cortinas sem janeiro, prendem a claridade,
uma porta entreaberta, à espera da vontade.
Vi um livro sem a dobra
onde a história adormeceu,
uma chávena morna, para alguém que não voltou.
o eco a varrer a casa como quem varria o chão,
e um piano desafinado a guardar uma última canção.
O vazio,
não chegou para apagar.
Chegou, para mostrar,
o que os olhos
nunca quiseram olhar.
O vazio desenhou,
traços onde eu não via.
Fez da minha ausência,
uma nova geografia.
O vazio desenhou,
sem pedir permissão.
Deixou a minha alma
pendurada na moldura do coração.
Vi um espelho cansado de repetir o meu nome,
um casaco na parede, vestido de abandono.
O pó a aprender caminhos sobre móveis sem destino,
e um banco de madeira a conversar consigo.
Nem tudo o que desaparece abandona o seu lugar,
há presenças que continuam, sem se deixarem tocar.
Então compreendi, sem pedir explicação,
não desenhou perdas,
deixou espaço para outra canção.
Hoje,
quando a casa respira devagar,
não procuro.
E escuto.
O vazio, antes de partir,
deixou o esboço
da pessoa
que eu ainda podia ser, naqueles dias que me fez sentir.