Quem me dera saber falar...
como quem acende uma casa.
Sem fazer barulho,
sem pedir licença,
só devolver calor
ao que o inverno cansou.
Guardo frases
no bolso do casaco.
Quando lhes toco,
já mudaram de sentido.
É estranho...
há palavras
que envelhecem depressa,
e sentimentos
que recusam ter idade.
Talvez escrever
seja o meu sotaque.
Porque a voz tropeça...
e o papel
nunca me interrompe.
Quem me dera saber falar...
como um abraço
que nunca chega tarde.
Como o primeiro riso
depois de um dia difícil.
Sem convencer.
Sem prometer.
Só ficar...
no lugar
onde a tua alma
descansa.
Nunca aprendi
a medir afectos.
Há dias
em que um olhar
vale mais
do que uma página inteira.
E eu continuo
a perder batalhas
contra frases pequenas...
porque aquilo que sinto
cresce depressa demais
para caber
numa única voz.
Se me vires calado...
não procures distância.
Às vezes
é o amor
a escolher
outra linguagem.
Quem me dera saber falar...
talvez um dia aprenda.
Até lá...
se encontrares
uma canção minha,
ouve-a devagar.
Porque cada verso
é uma conversa
que eu ainda
não consegui ter.
E talvez...
sem eu dizer "amo-te"...
consigas ouvi-lo
na mesma.