Eu não falo com Deus em voz perfeita
falo cansado, às vezes sem receita
há noites em que só o silêncio ora
e mesmo calado sinto que Ele me escuta cá fora
Falo-lhe das sombras que ninguém vê
dos pensamentos que escondo até de mim próprio sem querer
peço-lhe abrigo quando a mente faz ruído
e agradeço nos dias em que o coração fica mais tranquilo
Há lágrimas minhas que só Deus conhece
quedas que o mundo vê mas não percebe
e mesmo quando me sinto distante da luz
há qualquer coisa dentro de mim que ainda me conduz
Eu já lhe pedi amor, abraço e perdão
já deixei culpa inteira cair no chão
já chorei sozinho a olhar para o infinito
como quem procura colo no invisível e no espírito
E no fim das orações mais silenciosas
eu peço sempre pelas mesmas pessoas
pelos que me amam, pelos que me feriram
e pelos que ficaram quando muitos partiram
Talvez fé seja isso… permanecer
mesmo sem entender tudo o que se vai viver
e continuar a falar com Deus baixinho
como quem encontrou eternidade dentro do próprio caminho