A minha vizinha fala com plantas
como quem negocia reféns
rega o manjerico devagar
e diz:
“hoje ninguém morre”
o prédio inteiro parece cansado
há um homem no terceiro esquerdo
que bate palmas sozinho
quando o micro-ondas apita
e eu começo a achar
que a cidade enlouquece por divisões
o carteiro já não sobe escadas
atira contas
como quem distribui ameaças
um puto desenhou um dinossauro
na paragem do autocarro
e alguém escreveu por baixo:
“também eu queria voltar antes do meteoro”
isto interessa-me mais
do que rappers a alugarem Lamborghinis
há poesia
numa torradeira avariada
há tragédia
em alguém dizer “bom dia”
com olhos de despedida
eu quero escrever assim
como uma câmara escondida
dentro da rotina.