Há coisas que não se sentem.
Percebem-se.
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### Verso I
A lucidez não chega em tempestade,
chega em forma de claridade.
Sem aviso, sem ruído, sem pressa,
como quem desmonta uma promessa.
Já não confundo intensidade com verdade,
nem presença com necessidade.
Há gestos que parecem destino,
mas são apenas caminho sem tino.
E eu, que já fui impulso e precipitação,
aprendi a ouvir a direção.
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### Pré-Refrão
Ver com nitidez
também é uma forma de solidão.
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### Refrão
Lucidez…
não grita.
Não pede.
Não insiste.
Apenas existe.
E ao existir,
desfaz o que era ilusão
sem tocar no chão.
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### Verso II
Há pessoas que entram como nevoeiro,
e saem como inventário inteiro.
Outras ficam pouco, mas ficam certas,
como portas discretas, mas abertas.
Não é sentimento que me guia agora,
é leitura precisa da hora.
Porque o erro não está em sentir,
está em fingir não ver o porvir.
E há um preço em cada cegueira:
repetição sem fronteira.
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### Ponte
A lucidez não salva.
Mas impede o exagero.
E às vezes isso
já é inteiro.
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### Último Refrão
Lucidez…
é aprender a não confundir
o que arde
com o que permanece.
É deixar cair
o que não sustenta.
Sem raiva.
Sem pressa.
Só com verdade.
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### Final
No fim,
não é o que acreditámos
que nos define.
É o que continuámos a ver
quando já não queríamos.