Tiga sai do monte com postura imperial,
pó nas Nike, olhar clínico, silêncio sepulcral,
céu cor de ferrugem sobre o cenário rural,
Alentejo profundo, cinematográfico e brutal.
Café da vila cheio, conversa inflamada,
cotovelos na madeira, sueca viciada,
um cota fala da chuva como profecia sagrada,
outro jura que a colheita foi sabotada.
Entro calmo, atmosfera logo muda frequência,
há sempre um fiscal da vida armado em excelência,
“esse puto faz música?” com ar de desconfiança,
como se rimar pesado fosse crime sem sentença.
Peço café cheio, água fresca, pão torrado,
empregado responde torto já meio irritado,
“só sais daqui quando pagares o fiado”,
eu nem sequer lá tinha entrado no mês passado.
Silêncio constrangedor, ambiente dramático,
olhares sincronizados em modo cinematográfico,
eu saco vinte euros num movimento coreográfico,
o homem pede desculpa num tom diplomático.
Lá fora o calor bate ríspido no alcatrão,
motas passam lentas tipo perseguição,
há putos no jardim a sonhar com milhão,
mas só conhecem salário mínimo e frustração.
Tiga não vende fantasia decorativa,
eu vejo decadência na estética festiva,
Portugal real por trás da narrativa turística,
aldeias esquecidas em política oportunista.
Noite cai pesada sobre os montes adormecidos,
grilos fazem loops quase hipnotizados e repetidos,
um BMW de 98 entra nos sentidos,
bass cavernosa, vidros quase derretidos.
Ritmo híbrido com textura futurista,
snares metálicas, ambiência pessimista,
eu escrevo cada barra com precisão calculista,
como quem deixa cicatriz verbal numa entrevista.
A malta fala muito mas sustenta pouco,
há influencers de aldeia armados em mafioso louco,
compram corrente falsa e já mudam o foco,
parecem traficantes e vivem do desconto.
Tiga mantém compostura aristocrática,
mesmo vindo da poeira agrícola e problemática,
lírica aromática, métrica matemática,
presença tão densa que a sala fica estática.