[Verso 1]
Há um tumulto tectónico sob a minha epiderme
um fulgor indócil que nenhuma calma dissolve
carrego precipícios na lucidez noctívaga
e uma espécie de fome metafísica impossível de anestesiar
Nunca fui talhado para superficialidades cénicas
há demasiado ruído ornamental nas pessoas
demasiada eloquência vazia
e escassez de densidade humana
Enquanto muitos performam versões palatáveis
eu permaneço abrupto
quase intransigentemente autêntico
mesmo quando isso me deixa à margem do convívio confortável
[Refrão]
A minha profundidade não é estética
é cicatriz convertida em linguagem
É sobreviver à implosão íntima
sem permitir que o espírito fique estéril
Porque há almas que nasceram oceânicas
incapazes de existir em recipientes rasos
[Verso 2]
Há noites em que o pensamento se torna sísmico
e a cidade inteira parece claustrofóbica
como se o betão absorvesse melancolia
e a devolvesse em néon e vertigem
Nesses instantes escrevo
não por vaidade literária
mas porque certas emoções
apodrecem quando permanecem enclausuradas
A palavra salva-me da asfixia emocional
da erosão provocada pelo quotidiano automático
e transforma este caos intrínseco
numa arquitectura quase transcendental
[Ponte]
Não procuro admiração fácil
procuro ressonância
Quero música que atravesse costelas
e reorganize silêncios interiores
[Verso Final]
Hoje já não temo parecer excessivo
o mundo precisa menos de neutralidade anestesiada
e mais de gente visceral
capaz de sentir sem pedir desculpa por isso
Porque profundidade nunca foi conforto…
foi abismo
consciência
e intensidade sustentada até ao limite humano
[Outro]
E talvez seja precisamente isso
que me mantém vivo:
sentir tudo
com uma violência quase poética