Há uma quietude rara quando tu chegas
como se o mundo se inclinasse sem pressa
uma luz difusa, quase inacessível
que torna o comum absolutamente visível
Tens uma forma de existir tão serena
como se a vida em ti fosse sempre plena
e eu, no silêncio desta contemplação
perco-me devagar dentro da sensação
És intervalo entre pensamento e brisa
uma presença que suavemente improvisa
e tudo em redor ganha outra gramática
mais leve, mais pura, quase automática
Há em ti um léxico de calma antiga
uma harmonia que o olhar não explica
como se o tempo, perto de ti, abrandasse
e qualquer ruído simplesmente cessasse
E eu reparo nas pequenas liturgias
dos teus gestos feitos de sinergias
como se cada movimento fosse oração
sem dogma, sem peso, só vibração
Tens claridade em forma de presença
uma espécie de paz sem consequência
que não exige nada, não prende, não chama
apenas existe… e em nós se derrama
E eu descubro palavras esquecidas
como ânfora, fulgor, sublimes vidas
porque tu reescreves o significado
do que é sentir alguém ao nosso lado
Não és chegada nem despedida
és permanência suavemente vivida
como se o mundo, por um breve instante
se tornasse inteiro e elegante
E se a alma tivesse som ou textura
seria esta calma, esta doçura
que em ti habita sem explicação
como música lenta dentro do coração
E tu és…
este lugar onde tudo faz sentido
sem pressa, sem ruído, sem destino definido