Há dias...
Em que a manhã entra pela janela...
E a luz não encontra ninguém.
O despertador faz o seu trabalho.
O peito recusa-se a assinar presença.
O espelho devolve um rosto conhecido.
A coragem ficou algures...
Entre o ontem e o café já frio.
A rua veste a mesma pressa.
Os semáforos continuam verdes.
Há qualquer coisa cá dentro...
Que insiste em ficar vermelha.
Chamam-lhe rotina.
Eu chamo-lhe sobreviver de olhos abertos.
Ninguém pergunta pelo peso dos ombros.
Só perguntam as horas.
Como se um relógio soubesse...
Quanto custa continuar.
Há dias...
Em que respirar é só um reflexo.
Sorrir é um uniforme.
E o silêncio...
Faz mais barulho do que a cidade inteira.
Há dias...
Em que o mundo continua igual.
Só nós...
É que desaparecemos um bocadinho.
Aprendemos cedo...
A esconder tempestades debaixo da camisa.
A dizer "está tudo bem"...
Com a voz afinada...
E o peito desafinado.
Há quem passe a vida inteira...
Sem sair do mesmo lugar.
Não por falta de estrada.
Por excesso de medo.
O relógio nunca atrasou.
Nós é que adiámos abraços.
Guardámos palavras.
Emprestámos tempo...
A quem nunca soube devolvê-lo.
Depois...
Há um instante.
Pequeno.
Quase invisível.
Um abraço.
Uma gargalhada.
Uma canção.
Um olhar.
E percebemos...
Que a esperança nunca saiu.
Estava só à espera...
Que alguém lhe abrisse a porta.
Se hoje custar...
Respira.
Não para fugir.
Respira...
Para ficar.
Porque até a noite mais longa...
Acaba por se cansar da escuridão.
E há dias...
Em que voltar a encontrar-nos...
É a maior vitória...
Que ninguém vê.