Nasci em oitenta e nove, num tempo sem pressa,
onde o mundo era mais simples, e a rua era promessa.
Cresci a ouvir histórias na voz de quem lutou,
entre paredes gastas onde o sonho habitou.
Havia rádio na cozinha, cheiro a café pela manhã,
e a vida ensinava devagar, sem mapa nem amanhã.
Eu era só um miúdo, com o futuro na mão,
a desenhar no caderno a primeira direção.
(Refrão)
E eu fui crescendo… passo a passo, devagar,
entre quedas e vitórias que aprendi a guardar.
A vida foi-me escrevendo sem eu saber cantar,
sou a poesia que nunca cantei… mas não deixei de estar.
Vieram anos de mudança, de partir e regressar,
de aprender que nem tudo o que dói se pode evitar.
Mudei de voz, de estrada, de forma de sentir,
mas nunca deixei o sonho dentro de mim dormir.
Vi o mundo acelerar, ficar difícil de acompanhar,
tecnologia a mudar tudo, até o jeito de amar.
Mas no fundo da memória, ainda encontro o lugar
onde o tempo andava lento e eu aprendia a sonhar.
(Refrão)
E eu fui crescendo… entre perdas e ganhar,
entre o que tive de deixar e o que aprendi a guardar.
A vida foi-me escrevendo sem eu saber cantar,
sou a poesia que nunca cantei… mas continuo a estar.
E agora em dois mil e vinte e tal, olho para trás,
tantos passos na estrada, tantas versões que são iguais.
O miúdo ainda vive, só aprendeu a calar,
mas escreve-se por dentro quando não consegue falar.
Se algum dia alguém ouvir o que eu não consegui dizer,
vai entender que viver também é não saber vencer.
Porque a história que trago não precisa de final,
é só um homem a aprender a ser real.
(Refrao)
E eu fui crescendo… e ainda estou a tentar,
dar voz às cicatrizes que o tempo quis guardar.
A vida foi-me escrevendo sem eu saber cantar,
sou a poesia que nunca cantei… mas aprendi a ficar.