Há manhãs em que a luz bate...
E ninguém abre a porta.
O corpo veste a rotina.
O peito despe-se da força.
O espelho conhece o meu nome.
Já não conhece o meu brilho.
Há sorrisos pendurados na cara...
Como quadros numa casa sem filhos.
O relógio nunca se atrasa.
Só nós ficamos para trás.
A cidade aprende a correr.
Esquece-se de olhar para o céu.
Há um peso...
Que não parte os ossos.
Parte os sonhos...
Em pedaços tão pequenos...
Que até a esperança custa a encontrar.
Fecha os olhos...
O mundo pode esperar um instante.
Há batalhas...
Que só se vencem por dentro.
Respira...
Até o mar recua...
Para voltar com mais força.
Respira...
Até a árvore enfrenta o inverno...
Antes de voltar a florir.
Respira...
As raízes atravessam a escuridão...
Sem nunca desistirem da luz.
Hoje o peito pesa.
Amanhã...
Vai voltar a ser casa.
Respira,
Há cicatrizes...
Que nunca pediram desculpa.
Vieram...
Ficaram...
Ensinaram.
Respira,
Nem toda a queda conhece a derrota.
Nem toda a lágrima conhece o fracasso.
Às vezes...
O chão só nos lembra...
Que ainda existe caminho para subir.
O vento dobra ramos.
Nunca dobrou montanhas.
O rio encontra o mar...
Sem discutir com as pedras.
A vida não promete facilidade.
Promete movimento.
E quem continua...
Mesmo devagar...
Já está a vencer.
Se hoje só consegues dar um passo...
Dá um.
O horizonte nunca pediu corridas.
Pediu coragem.
Respira...
Até o mar recua...
Para voltar com mais força.
Respira...
O sol nunca discute com a noite.
Espera...
E nasce outra vez.
Respira...
Nenhuma tempestade...
Assinou contrato com a eternidade.
Respira...
Porque o dia...
Em que pensaste desistir...
Pode ser o mesmo...
Em que a vida começa...
A mudar.
Então tu, respira.