Estou aqui neste muro,
a ouvir o peso do mundo.
As vozes dizem que sou profundo,
eu só respondo: mergulho.
Já arrebatei o meu escuro,
já lancei o meu escudo.
Hoje o perigo não vem de fora,
aprendeu a falar cá dentro.
Aqui sentado a olhar um brilho,
único.
Sou eu quando era puto,
antes dos filtros,
antes do orgulho,
antes de confundir valor com barulho.
Toda a gente quer deixar legado,
mas ninguém consegue ficar sozinho
cinco minutos com os próprios pensamentos.
Correm atrás da eternidade,
fogem do espelho.
Decoram discursos,
esquecem-se deles.
E eu?
Já não quero ser único.
Quero ser inteiro.
Porque parti-me em versões,
em expectativas,
em personagens.
Fui filho,
fui sonho,
fui ruína,
fui saída.
Agora procuro a parte de mim
que ficou esquecida
entre quem eu era
e quem diziam que eu devia ser.
A cidade corre.
Eu observo.
A cidade grita.
Eu absorvo.
Há uma diferença
entre existir
e estar vivo.
E eu estou cansado
de sobreviver aos dias.
Quero habitá-los.
Se amanhã desaparecer,
que não digam que fui perfeito.
Digam apenas:
enfrentou o escuro,
sem apagar a luz.
E quando o silêncio chegar,
não quero aplauso,
não quero memória.
Quero reconhecer-me.
Inteiro.