[intro]
(Água corrente. Chuva. Silêncio profundo.)
Nas profundezas
Onde o sol não chega
Ainda há voz
TIPOZHIN
EDVERSO
[verso 1]
Iara canta no fundo, cabelo negro a flutuar
Quem nunca seduziu pra não morrer de solidão?
Quem nunca usou a própria voz pra tentar se salvar?
Me chamam de sereia, me chamam de perdição
Boto cor de rosa, olhos que enganam na noite
Quem nunca se transformou pra amar em segredo?
Ribeirinho espera, mas o boto some no açoite
Me chamam de lenda, mas meu choro é medo
[refrão]
Nas águas profundas, eu ainda sou humano
Afogo, seduzo, protejo, me perco
Meu reino é líquido, minha dor é oceano
Por trás da escama, o coração aberto
[verso 2]
Mãe-d'água guarda o rio, guarda quem não tem vez
Quem nunca protegeu o que os outros esqueceram?
Mboi-tatá serpente, fogo que arde e não se vê
Quem nunca queimou por dentro sem que perceberam?
Jaci no céu reflete no espelho d'água
Quem nunca buscou no luar o que faltava?
Sereia europeia, canto que atrai nau
Quem nunca chamou por socorro e ninguém escutava?
[ponte]
Água que dá vida, água que leva
Quem nunca chorou no mar sem ninguém ver?
Criatura que habita a margem, a praia, a treva
Quem nunca viveu entre dois mundos sem saber?
[verso 3]
Cobra-grande enrola no fundo, guardiã do que é sagrado
Quem nunca protegeu o que os outros violaram?
Lagoa negra esconde segredos do passado
Quem nunca guardou mágoas e nunca explicaram?
Pirarucu ancestral, peixe que respira ar
Quem nunca precisou sair do próprio lugar?
Água salobra, água doce, água que mistura
Quem nunca foi mistura, fronteira, procura?
[refrão]
Nas águas profundas, eu ainda sou humano
Afogo, seduzo, protejo, me perco
Meu reino é líquido, minha dor é oceano
Por trás da escama, o coração aberto
[saída]
Chuva cai, rio corre, mar se agita
Ainda há quem dance na beira, ainda há quem grita
Não sou monstro, não sou lenda
Sou a água que sente
Sou a água que espera
Sou a água que geme
(Água. Chuva. Silêncio.)
EDVERSO
TIPOZHIN