Houve manhãs de saldo negativo,
mas o peito nunca fez contabilidade.
Perdi o mapa, conservei o instinto,
havia caminho onde eu via confusão.
Tive a rua a ensinar sem quadro,
o erro a cobrar sem recibo,
um amigo a partir sem alarde,
outro a chegar quando já não era preciso.
Houve mesas fartas, copos erguidos,
notícias boas a entrar pela porta,
e houve noites em que a própria cama
parecia grande demais para uma pessoa só.
Não conto a vida por medalhas,
conto-a pelos nomes que deixou,
pelas vezes que mudei de pele
sem saber sequer quem me chamou.
Entre a conta e o excesso,
entre o tombo e o aplauso,
há coisas que não cabem
numa fotografia de ocasião.
A vida não veio direita —
veio aos golpes, aos intervalos,
com a alegria a fazer contrabando
por dentro da preocupação.
Já tive planos com data marcada
e planos que morreram na gaveta,
já vi uma porta mudar de dono
antes de conseguir chegar à maçaneta.
Aprendi que há conquistas discretas:
voltar a casa sem fugir de mim,
dizer “não” sem pedir desculpa,
ver alguém sorrir e pensar: ainda bem.
E quando tudo parece perdido,
não procuro frases para emoldurar.
Pego no que restou da tarde,
ponho os pés na rua
e deixo o dia continuar.
Porque a vida não me deve beleza,
nem eu lhe devo explicação.
Há dias que chegam com flores,
outros vêm de mãos vazias —
e ambos merecem lugar à mesa.
Entre a conta e o excesso,
entre o tombo e o aplauso,
há coisas que não cabem
numa fotografia de ocasião.
A vida não veio direita
veio aos golpes, aos intervalos,
com a alegria a fazer contrabando
por dentro da preocupação.
Se amanhã vier torto,
que venha.
Já conheço o caminho sem placa.
Não quero uma história sem manchas —
quero uma que ainda tenha páginas.