Foi aqui...
que o pó se colou às minhas botas
antes da glória tocar à minha porta.
Foi aqui...
que aprendi que o pão custa suor
e que a dignidade não se vende por favor.
Foi aqui...
que vi o sol nascer sobre telhados gastos,
e homens a esconder tempestades
atrás de sorrisos gastos.
Foi aqui...
que o silêncio me ensinou a escrever.
Quando ninguém me ouvia,
o papel aprendeu a responder.
Foi aqui...
que a rua me deu mais perguntas do que respostas.
Descobri que nem toda a porta aberta
é caminho...
e nem toda a porta fechada
é derrota.
Foi aqui...
Que fui feliz sem saber.
Que chorei sem ninguém ver.
Que perdi...
para aprender.
Que caí...
para crescer.
Se hoje a minha escrita pesa,
é porque esta cidade
primeiro me ensinou
o peso da fraqueza.
Foi aqui...
que enterrei amizades
antes de enterrarem corpos.
Vi promessas apodrecerem
como folhas esquecidas
no Outono das palavras.
Foi aqui...
que conheci a abundância da pobreza.
Gente sem dinheiro,
Tem uma mesa farta de humanidade.
E também conheci
quem possuía o mundo inteiro...
e morreu órfão da verdade.
Foi aqui...
que descobri
que a inveja caminha bem vestida,
enquanto a humildade
chega a casa de mãos calejadas.
Foi aqui...
que escrevi os primeiros versos.
Não para impressionar ninguém.
E aqui para impedir
que a minha alma
morresse em silêncio.
Esta cidade
deu-me cicatrizes
que ainda hoje respiram.
Também me deu asas.
E só quem sangra as próprias raízes
aprende a voar
sem esquecer a terra.
Foi aqui...
que conheci o amor
e o medo de o perder.
Foi aqui...
que abracei a esperança
nos dias em que a esperança
não me queria abraçar.
Foi aqui...
que vi crianças sonharem alto
e adultos desistirem cedo.
Aprendi que a idade
não mede coragem.
É o coração
que decide quem continua.
Hoje caminho
pelas mesmas ruas.
Sem procurar respostas.
Deixo versos.
Foi aqui.