Ainda bem que está tudo bem...
Foi o que disse ao espelho.
Ele não respondeu.
A cidade acordou à pressa,
mais um desfile de gravatas,
sorrisos alugados,
consciências hipotecadas.
Há cafés cheios.
Mesas vazias.
Toda a gente fala.
Quase ninguém escuta.
Ainda bem que está tudo bem...
Há fotografias onde cabe toda a família...
...menos a verdade.
Há brindes feitos de cristal,
e silêncios servidos à mesa.
Quem perdeu o hábito do abraço
aprendeu a cumprimentar com a carteira.
Chamam-lhe sucesso.
Eu chamo-lhe mobília bonita
numa casa sem lume.
Ainda bem que está tudo bem...
Diz quem já não sabe
a diferença entre viver
e sobreviver.
Ainda bem que está tudo bem...
Enquanto houver internet,
há quem nunca descubra
que o vizinho do lado
anda a morrer em câmara lenta.
O relógio nunca chegou atrasado.
Nós é que chegámos tarde
às pessoas importantes.
Há filhos que herdaram relógios,
mas nunca herdaram tempo.
Há pais que deixaram apartamentos...
...e ficaram em dívida
num abraço por dar.
No fim...
Nenhum caixão leva contratos.
Nenhuma campa pede currículo.
E o último bolso do casaco...
vai sempre vazio.
Ainda bem...
Que está tudo bem.
É a mentira mais educada
que alguma vez aprendemos.
Ou talvez...
Um verdadeiro luxo...
seja encontrar alguém
que responda:
Não, Hoje não estou bem.