Tu és arquitetura no meio do meu caos,
linhas que me perdem, mas sabem dos traços,
curvas que me prendem sem usar laços,
e eu a cair devagar nos teus espaços.
És estrutura que me quebra o raciocínio,
planta viva dentro do meu domínio,
cada detalhe teu é desatino,
mas é nesse erro que eu me determino.
Toco-te em pensamento sem permissão,
como quem risca fogo dentro da mão,
és parede que responde à minha tensão,
és silêncio que me grita “não”.
E eu avanço lento, quase sem defesa,
és beleza que também é fraqueza,
és obra-prima feita de incerteza,
és pecado com cara de natureza.
Tu és arquitetura dentro de mim,
eu sou impacto dentro de ti assim,
queda elegante, desejo sem fim,
amor agressivo, mas doce enfim.
Tu és linha reta no meu descontrolo,
eu sou terremoto dentro do teu colo,
és o edifício onde eu me isolo,
e mesmo em ruína, ainda te envolvo.
Há em ti algo que me desorganiza,
mas é essa bagunça que me hipnotiza,
és mapa vivo que nunca se pisa,
mas eu erro sempre e isso avisa.
Não te construo, tu já existes,
em cada gesto que não resistes,
és luxo lento dos dias tristes,
és tudo aquilo que não explicas.
E eu, arquiteto sem plano certo,
desenho-te perto mesmo de longe aberto,
sou erro fino, sou toque incerto,
sou destruição no teu deserto.
Mas quando me olhas, tudo assenta,
até a dor fica mais lenta,
és tempestade que me aguenta,
és arquitetura que me inventa.
Tu és arquitetura dentro de mim,
eu sou impacto dentro de ti assim,
queda elegante, desejo sem fim,
amor agressivo, mas doce enfim.
Tu és linha reta no meu descontrolo,
eu sou terremoto dentro do teu colo,
és o edifício onde eu me isolo,
e mesmo em ruína, ainda te envolvo.