Nasci em oitenta e nove...
já o mundo vinha cansado.
Cresci a ouvir histórias
de quem viveu o outro lado.
A lareira acesa...
o pão torrado na mão.
A minha avó fazia do lume
o coração da reunião.
Falava de dias magros,
mesa posta sem fartura.
Uma sardinha dividida...
e ainda sobrava ternura.
Falava nomes em voz baixa,
o medo morava à porta.
Havia quem fechasse a boca...
para não manter uma vida rota.
Ouvi tempos...
em que a fome tinha nome.
Ouvi tempos...
em que o silêncio pagava caro.
Houve tempos...
Em que uma casa valia
pela força de quem lá vivia.
E essas histórias...
ainda vivem em mim.
O meu avô falava pouco.
E quando falava...
parava a sala.
Dizia que o medo
não precisava de bater.
Vem com poucas palavras e bastava aparecer.
Falava de vida antes de eu nascer...
dos olhares desviados.
De palavras engolidas,
vizinhos calados e de outros noticiários.
Não havia luxo.
Havia coragem.
Não havia excesso.
Havia partilha.
Quando chegava a matança do porco,
a aldeia era uma família.
Cada braço tinha trabalho,
cada mesa tinha companhia.
Depois chegou o meu tempo.
Também com as minhas guerras.
Vi o álcool roubar o sorriso
dentro da minha própria casa.
Vi a minha mãe
engolir lágrimas em silêncio.
Vi o meu pai perder-se
onde nunca quis ser encontrado.
E aí que percebi...
Que a pobreza nem sempre vive
do mesmo lado.
Às vezes...
vive dentro das pessoas.
Olho para trás...
Não para viver no passado.
Mas para perceber
de onde vem a minha força.
Sou filho das histórias
contadas ao calor da lareira.
Das mãos marcadas pelo trabalho.
Do pão alentejano torrado.
Da mesa repartida.
E de gente
com quase nada...
Não deixava
ninguém sozinho.
Ouvi tempos...
que fizeram de nós
aquilo que ainda somos.
Ouvi tempos de outros tempos.