Trago a noite entranhada na roupa,
poeira nos dentes, ferrugem na voz,
fiz das ruínas abrigo e revolta,
aprendi a lutar quando lutaram contra nós.
Não me viste quando a fome apertava,
quando a esperança era artigo raro,
quando a minha cabeça gritava
e eu respondia baixinho: “ainda não paro”.
Fui criado entre grades sem ferro,
cada erro deixou um brasão,
fiz do medo matéria-prima,
fiz da queda uma outra dimensão.
Tenho fantasmas que não têm nome,
sentam-se comigo quando a noite cai,
alguns pedem contas, outros pedem sangue,
eu digo: “esperem, ainda não acabou”.
Quando chegar o último julgamento,
não quero desculpas nem absolvição,
ponham a minha vida em cima da mesa,
cada pecado, cada decisão.
Se o mundo inteiro tiver de arder,
que arda o que em mim já morreu,
eu atravessei o inferno acordado
e foi lá que descobri quem sou eu.
Não há medalhas para quem resiste,
nem hinos para quem sobrevive,
há apenas o peso de continuar
quando uma parte de nós já não vive.
Vi muita fé mudar de preço,
muita lealdade mudar de mão,
por isso não vendo o que penso
nem hipoteco a minha convicção.
A minha guerra não usa farda,
não tem fronteira, bandeira ou general,
é travada atrás dos olhos
num território chamado “ser normal”.
Cada cicatriz tem uma língua,
cada silêncio deixou um sinal,
eu não vim pedir lugar no paraíso —
vim preparado para o julgamento final.
Quando chegar o último julgamento,
não quero desculpas nem absolvição,
ponham a minha vida em cima da mesa,
cada pecado, cada decisão.
Se o mundo inteiro tiver de arder,
que arda o que em mim já morreu,
eu atravessei o inferno acordado
e foi lá que descobri quem sou eu.
E se me disserem: “acabou”,
eu respondo sem tremer: “talvez”.
Há homens que morrem uma vez,
eu morri tantas que perdi a conta.
Por isso, quando fecharem os portões
e a última sentença for lida,
não digam que eu fui um sobrevivente —
digam que fiz guerra pela minha vida.