És o interstício entre o caos e a ternura,
a epifania que a noite sussurra.
Habitas-me... discreta liturgia,
numa metafísica de pele e vigília.
Nos teus olhos, a vertigem serena,
um absoluto que em mim se encena.
E eu, náufrago da própria razão,
encontro repouso na tua combustão.
Arrepios.
Como se a alma, súbita, tivesse memória.
Como se o silêncio antecedesse a glória.
Como se o universo, cansado de infinito,
coubesse inteiro no teu gesto mais ínfimo.
Arrepios.
Não és desejo apenas. És imanência.
A mais delicada forma de evidência.
Um fulgor antigo, uma astral consonância,
a rara coincidência entre febre e substância.
E quando te toco, suspende-se o tempo;
a matéria abdica do seu fundamento.
Resta apenas essa estranha harmonia:
tu em mim. Eu na tua geografia.
Arrepios.
A tua presença tem qualquer coisa de divino:
não porque me eleve aos céus,
mas porque faz do instante
o único destino.