[Verso 1]
Alentejo no peito, silêncio no rosto
aprendi cedo a engolir desgosto
céu tão aberto e eu tão preso por dentro
há noites em que nem eu me aguento
Já perdi gente sem sequer morrer
já vi amor a prometer e depois desaparecer
já pedi a Deus só um bocadinho de paz
mas a vida aqui bate sempre demais
Há copos vazios em mesas antigas
há nomes guardados em ruas esquecidas
e eu continuo entre noites compridas
a fingir que as feridas tão resolvidas
[Refrão]
E eu tou farto…
farto de tentar parecer inteiro
quando há um temporal cá dentro o dia inteiro
Farto…
de perder quem eu queria perto
e acabar sempre sozinho no deserto
[Verso 2]
Já me aconteceu tanto que eu nem sei contar
há dores em mim que desaprendi de mostrar
eu rio às vezes só pra não chorar
e escrevo porque já não sei falar
Vi amizades a mudar por inveja
vi amor virar peso e conversa
vi gente boa a ficar dispersa
e eu cada vez mais longe da promessa
A minha mãe não merece ver-me assim
cansado da vida antes do fim
mas há dias em que o mundo cai em cima de mim
e eu só queria silêncio dentro de mim
[Refrão]
E eu tou farto…
farto de carregar memória
como se cada lembrança fosse uma vitória
Farto…
de dar tudo sem medida
e ver partir metade da minha vida
[Outro]
Mas mesmo cansado… eu ainda escrevo
porque se eu parar
acho que desabo por completo
E talvez ninguém perceba
mas há homens no Alentejo
a morrer devagar
em silêncio