Não te procurei.
A verdade é essa.
A vida já me bastava,
o silêncio fazia companhia,
e o coração tinha aprendido
a caminhar devagar.
Depois...
vieram os teus olhos.
Nem promessas.
Nem pressa.
Só dois olhares
a demorarem mais do que deviam.
Sem dar conta,
já moravas nos meus dias.
Quando escolheste partir,
respeitei o teu caminho.
O amor nunca prende.
Só que a noite...
essa não soube aceitar.
Foi nela que descobri
o peso de uma ausência.
Escrevi versos
como quem tenta estancar um rio.
Falei com Deus
sem grandes palavras.
Apenas uma:
"Se este amor nasceu em Ti,
não o deixes morrer em mim."
E tu voltaste.
Não como um milagre.
Como uma resposta.
Desde esse dia,
há um lugar onde o mundo deixa de fazer ruído.
É quando adormeces devagar,
quando o sono te torna ainda mais bonita,
quando procuras a minha pele
sem dizer uma palavra.
Nesses instantes,
o tempo perde a pressa.
Aprende a ficar.
Quando sais,
a casa continua inteira.
Só o meu peito é que fica
à tua espera.
Levo-te comigo
na chávena por lavar,
na música que começa sozinha,
na estrada de regresso,
no pensamento que insiste
em perguntar se já chegaste bem.
Depois voltas.
E basta abrires a porta.
O resto da vida
fica lá fora.
A tua mão encontra a minha.
O meu olhar encontra o teu.
E tudo aquilo
que nunca consegui explicar
passa finalmente
a fazer sentido.
Seja este o nosso amor.
Não um fogo que consome.
Uma luz serena
que escolhe regressar,
todos os dias,
ao mesmo lugar.