Chegou sem nome, sem morada,
só a tinta meio borrada,
como se a dor tivesse atravessada
cada palavra mal dobrada.
Abri devagar, quase em receio,
havia silêncio no meio,
frases curtas, peso cheio,
como quem escreve do próprio bloqueio.
“Se leres isto, ainda sentes.”
Foi a linha mais diferente,
porque há cartas sem remetente
que conhecem mais da gente.
Havia saudade nas margens tortas,
memórias presas atrás de portas,
e um amor que nunca suporta
o peso das horas mortas.
Sem remetente, mas vinha de ti,
mesmo sem nome eu reconheci,
há dores que eu nunca esqueci,
há silêncios que ainda vivi.
Sem remetente, sem explicação,
só emoção dentro da mão,
como se o passado pedisse perdão
em forma de carta e confissão.
A folha tremia no vento da sala,
e cada palavra parecia bala,
não pela força com que fala,
mas pelo vazio que instala.
Dizia:
“o tempo muda quase tudo,
menos aquilo que ficou profundo.”
E eu fiquei preso um segundo
a olhar o papel como um moribundo.
Não havia fim nem assinatura,
só rasura atrás de rasura,
como quem tentou esconder a fissura
mas deixou escapar a ternura.
E no último canto, quase apagado,
havia um “cuida do teu passado”,
como se alguém do outro lado
ainda me tivesse guardado.
Sem remetente, mas vinha de ti,
mesmo sem nome eu reconheci,
há dores que eu nunca esqueci,
há silêncios que ainda vivi.
Sem remetente, sem explicação,
só emoção dentro da mão,
como se o passado pedisse perdão
em forma de carta e confissão.