[Verso 1]
Carrego incêndios debaixo da epiderme
numa quietude quase inverne
há qualquer coisa em mim que não dorme
mesmo quando a madrugada se dissolve
Sou feito de fuligem e memória
de maresia antiga e contraditória
há cicatrizes com mais trajectória
do que muita gente com falsa glória
Caminho lento pela calçada húmida
olhos fundidos na névoa plúmbea
a cidade inteira parece lúgubre
mas o meu peito continua ígneo
[Refrão]
Há brasas vivas na melancolia
um fulgor secreto na agonia
porque até a alma mais sombria
guarda lume para outro dia
E eu…
já não temo a escuridão
aprendi que o abismo também
pode ensinar contemplação
[Verso 2]
Trago o peso de um silêncio monástico
misturado com instinto errático
quase metafísico, prismático
mas ainda profundamente empático
Vejo beleza no decadente
na ferrugem, no ausente
porque a vida raramente
é límpida ou complacente
Há noites de bruma sideral
onde o coração parece catedral
e eu perdido nesse vendaval
entre o profano e o divinal
[Ponte]
Talvez existir seja isto…
arder devagar
sem permitir
que o mundo apague o lume interior
[Outro]
Porque há homens
que mesmo reduzidos a cinzas…
continuam brasas