Por mais que eu tente fugir do passado,
há memórias que dormem ao meu lado,
fantasmas antigos num quarto fechado,
e um silêncio pesado colado ao meu estado.
A vida às vezes parece uma despedida lenta,
gente que promete e depois rebenta,
o coração cria esperança, o mundo experimenta,
e a alma aprende a ficar mais cinzenta.
Há noites em que tudo volta sem pedir licença,
nomes, lugares, cheiros, ausência,
como se a memória tivesse consciência,
e soubesse exatamente onde dói a permanência.
Talvez viver seja isso… suportar a lembrança,
continuar mesmo cansado da mudança,
guardar no peito uma pequena esperança,
quando a mente já perdeu a confiança.
Porque crescer também é perder partes de nós,
versões antigas, sonhos, vozes,
e há dores que ficam vivas depois dos finais ferozes,
como ecos eternos dentro de corredores a sós.
Mas no meio da tristeza ainda existe qualquer coisa,
uma luz pequena, silenciosa e teimosa,
que mesmo depois da mágoa mais dolorosa…
continua a dizer-nos para tentar outra vez.